Odete Roitman, ontem e hoje: a revolução da mulher madura – Escritor Brasileiro

Assistindo ao remake da novela Vale Tudo, percebi como o envelhecimento feminino foi reformulado desde a primeira exibição, em 1988, até a montagem atual, em 2025. A protagonista, Odete Roitman, segue sendo uma mulher com mais de sessenta anos que se relaciona com homens mais jovens. Ocorre que, na década de oitenta, isso era um escândalo. Atualmente, essa mesma trama já não causa tanto espanto.

A Odete Roitman original era um retrato da época em que a medicina (feita por homens) não recomendava a reposição hormonal. Ao contrário, orientava que os sintomas da menopausa fossem silenciados com resiliência. O único caminho possível era suportar a queda na qualidade de vida, que poderia contemplar, entre diversos desconfortos, baixa libido e dor nas relações sexuais. Sendo assim, para muitas, a menopausa não tratada definia não somente o fim da fertilidade, mas também da vida sexual. Isto é, o encerramento de um aspecto significativo do que representa ser mulher.

Na mesma época, era consolidado o clichê do homem de meia idade que trocava sua esposa pela amante bem mais nova. Enquanto muitas mulheres encerravam a vida sexual a partir da menopausa, a eles era permitido (e até admirado) continuar sendo um exemplo de virilidade, “dando conta” de uma novinha. Já o contrário, o relacionamento de uma mulher mais velha com um homem mais jovem, era ridicularizado e tratado como tabu.

O que aparentava ser uma dor individual de cada uma, era o reflexo de uma sociedade estruturada para desvalorizar e descartar mulheres. Afinal, se a vida sexual delas havia se encerrado, estas eram substituídas por outras sexualmente ativas, isto é, com menos idade.

Sem a reposição hormonal, as mulheres menopausadas eram pressionadas a se aproximarem cada vez mais da figura da Dona Benta, do Sítio do Picapau Amarelo (Monteiro Lobato). Essa personagem usava um coque de cabelos brancos e vestia saias longas e largas, sem denotar nenhum tipo de vaidade. Sua única qualidade era a sabedoria. Tinha a vida girando tão somente ao redor dos netos, sem nenhum plano ou atividade para si mesma, muito menos vontade de namorar.

Hoje, essa narrativa se transformou. Minha geração está reinventando a vida pós-menopausa. Os cabelos podem ser longos, soltos e inclusive brancos, sem que isso denote falta de vaidade. Há versatilidade na forma de apresentação, não sendo condenadas roupas provocantes, tatuagens ou acessórios que costumavam ser associados exclusivamente à juventude. Quedas hormonais, insônia, calores, névoa mental, perda de massa muscular e demais assuntos relacionados à saúde da mulher são enxergados pela medicina atual, que tem participação feminina crescente. Após os cinquenta, a vida sexual segue ativa, podendo inclusive haver relacionamentos com pessoas mais novas. O empoderamento feminino ressignificando essa etapa da vida está consolidando a ideia da “menopower”, um neologismo que reflete a potência após a menopausa.

No contexto atual, os romances de Odete Roitman trazem o mesmo tipo de reação que qualquer relacionamento com grande diferença de idade, independente do sexo. Na verdade, mesmo sendo uma vilã, sua vitalidade nessa idade desperta a admiração de algumas mulheres. Quisera eu, chegar aos sessenta anos sendo dona do meu destino como a personagem atual. Mas Dona do Destino já é outra novela, o que já me dá ideias para uma próxima crônica.

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