Meu sofá é muito grande para a minha sala. Meus sentimentos também são grandes demais para mim. Por isso, transbordam formando poças, piscinas e oceanos. O que eu quero ainda não tem nome, nem forma, nem cheiro. Mas também poderia ser um sofá menor para a minha sala, deixando mais espaço vazio.
Só que o vazio já existe, nada tem sido capaz de preenchê-lo. Nem mesmo o sofá exageradamente grande. Nem uma adega climatizada para doze garrafas. Uma viagem para o melhor resort também não. Tampouco a subida de uma montanha, ou a visita a uma caverna. Talvez, para lidar com o vazio, fosse necessário mudar de nome, de CEP, de etnia. Ser solta no mundo. Talvez o mundo esteja chato demais para mim, ou eu esteja exigente demais com a vida. Nesse caso, não adianta providenciar outro sofá, adegas, resorts, montanhas ou cavernas.
Vai ver a paz está na ausência, o que lembra a ideia do vazio. Vai ver, está em sentir o básico, o banal, evitando dilacerações. Vai ver, o segredo seja não viver nem sentir nada que mereça ser classificado como segredo. Vai ver, a plenitude só existirá quando não sobrarem mais textos, nem leitores, nem blogs. Quando restarem somente as palavras das bulas de remédios, descrevendo contra-indicacoes e reações adversas. Vai ver, o único som que vale a pena ser ouvido é o silêncio. E o único destino possível é o futuro. Vai ver, os sonhos se resumem a um sofá, uma adega, um resort, uma montanha, uma caverna. Ou ao vazio. Ou a ser solta no mundo.
Os pensamentos me perseguem, tornando minha vida nada convencional. A vida real que me é possível. A que comporta esse sentimento de inadequação. Afinal, o convencional nunca foi para mim. O lógico, o certinho, o padrão que a grande maioria busca. O estável, previsível e tranquilo. Não, isso é para os outros. Não para mim. Posso nem saber o que busco, o que me faz feliz. Só sei que é diferente disso. Não é nem montanha russa, muito menos carrossel. É uma atração que ainda não existe no parque de diversões.
O mundo real, meu mundo real, nem tem grandes aventuras. Se baseia numa rotina de trabalho, passeios com minha filha, e assistir alguma coisa na televisão depois que ela dorme. Não é ruim. Pelo contrário, tem seus highlights. Mesmo tendo um mundo real diferente do convencional, ele não me basta. Não apazigua essa inquietude. A sensação de inadequação.
Por isso, busco os sonhos. Por isso, escrevo. Por isso, tenho uma nuvem me esperando a qualquer momento. Porque o mundo real é só o mundo real. O que me encanta no mundo real, trago para meus sonhos. Como quando escrevo para e sobre minha filha. Quando sou solta no mundo.
O mundo real, ainda que com variações, todo o mundo tem. Nele, sou só mais uma. Já o mundo dos sonhos, que construo um pouco a cada dia, esse é só meu e dos meus convidados. É o que me faz única e incomparável.
O mundo real é necessário, claro, para todos. É onde os dias se alternam. Bons e ruins. Maravilhosos e catastróficos. Minha conexão com o mundo real é tão somente a estritamente necessária. Talvez seja minha conexão fraca com o mundo real, que me afaste tanto e tanto do convencional. Porque o não-convencional é o mais próximo do mundo dos sonhos que pode existir no mundo real. Nem consigo dar contornos concretos a esse não-convencional que me encanta, mas sei que ele é uma ponte entre os dois mundos. A ponte que preciso para manter meu direito de ir e vir.
Pode ser que o não-convencional seja feito de flashes. Trechos entre parênteses que aparecem no meio da narrativa principal. Felicidade pode ser parcelada em flashes? O não-convencional pode ser um monte de coisas ou absolutamente nada. Me permito experimentar um pouco de tudo, até descobrir o que é. Me permito, porque minha narrativa principal já está em curso, com protagonistas bem definidas. Não preciso ter medo dos trechos entre parênteses. Eles só têm a acrescentar. A colorir a ponte que liga os dois mundos. Tornando mais palatável e solto o que a realidade me impõe.
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