O vagão no trilho que não muda a direção – Escritor brasileiro

Voltei do trabalho no vagão das mulheres no metrô da minha cidade. Esse vagão, disponibilizado nos horários de pico para uso exclusivamente feminino, sempre me desperta reflexões. Seria um gueto para nos segregar do mundo masculino? O quão machista e misógina é nossa sociedade para naturalizar a necessidade desse vagão? O que está sendo feito sobre esse assunto, além de separar as mulheres dos homens para protegê-las temporariamente?

Infelizmente, não enxergo nenhuma medida eficaz para alterar essa realidade. Ao contrário, enxergo uma estratégia em curso para potencializar ainda mais a violência contra mulheres. O movimento Red Pill vem ganhando cada vez mais adeptos propagando discursos misóginos. O posicionamento anti-woke se opõe a pautas consideradas progressistas, como as de diversidade, equidade e inclusão. Em outras palavras, reafirma que os grupos minorizados, como as mulheres, devem seguir sendo oprimidos. A lista de iniciativas contra as mulheres é longa, passando pela chamada extrema direita e pelos celibatários involuntários, denominados incel.

A internet, principalmente as redes sociais, fornece um ambiente propício para o fortalecimento desse ódio contra as mulheres, embasado na sensação de impunidade. Enquanto os homens de mais idade parecem usufruir desse contexto para expor o que costumava ser velado, as novas gerações de meninos já vêm se formando com este discurso de ódio cada vez mais arraigado e público.

Ao contrário do vagão das mulheres no metrô do Rio de Janeiro, este problema parece não se restringir ao território carioca. O Brasil tem mais de mil casos de feminicídio registrados em 2025, ocupando o quinto lugar no ranking mundial. Ainda assim, muitas pessoas não se reconhecem nesses números. Talvez por instinto de sobrevivência, ou por nunca terem sofrido ou testemunhado um caso próximo.

Surge então uma reflexão importante: como é possível que tantos não se vejam nesse retrato, se todos estamos inseridos nesse mesmo contexto? Para pensar sobre isso, proponho um paralelo com outro tema: os acidentes fatais de trabalho.

De acordo com a Pirâmide de Bird, para cada acidente fatal no trabalho, existem milhares de pequenos desvios e incidentes prévios. Ou seja, para evitar uma tragédia, é preciso agir antes, combatendo os desvios nas atividades laborais.

O mesmo vale para a violência contra mulheres. Antes que um episódio grave aconteça, há microagressões, pequenas atitudes e comentários que corroem o respeito e a segurança psicológica. Elas podem vir disfarçadas de brincadeira, de “piada inofensiva”, ou de uma expressão preconceituosa repetida no cotidiano. Prevenir a violência começa na intolerância a essas pequenas transgressões.

Quem se posiciona quando vê uma mulher ter sua fala interrompida ou sua autoridade questionada? Ou quando homens fazem comentários constrangedores objetificando um corpo feminino? Ou mesmo ao ouvir um colega relatar relações extra-conjugais como se isso fosse digno de admiração? Ou quando outro fala que a ex é louca?

A verdade é que reclamar de uma ex “louca” é somente mais um dos privilégios masculinos, porque quando uma mulher tem um ex louco, ele a mata, aumentando as estatísticas de feminicídio.

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