Participei de um treinamento sobre liderança que me trouxe diversos insights sobre como aumentar meu senso de realização no trabalho, desempenhando atividades que me desafiem a potencializar meus pontos fortes. O assunto desperta meu interesse, tanto como objeto de estudo, quanto pela possibilidade de aplicação prática para melhorar minha rotina e a das pessoas que trabalham comigo. Como de hábito, minhas reflexões me levaram a questionamentos sobre a situação das mulheres na realidade em que estou inserida.
Enquanto aprofundava minha busca por autoconhecimento e senso crítico, lembrei da pirâmide de Maslow. O público-alvo desse treinamento são pessoas que já têm suas demais necessidades supridas e buscam realização pessoal, se situando no topo dessa pirâmide.
Na pirâmide de Maslow as necessidades humanas são hierarquizadas, estando na base as necessidades fisiológicas e de segurança. Com o atendimento às necessidades básicas, é possível buscar a satisfação das necessidades secundárias: sociais e de status/estima. No topo da pirâmide, quem tem todas as demais necessidades atendidas, busca realização pessoal.
Tenho dúvidas se eu e as outras mulheres que estavam no treinamento realmente estamos com as demais necessidades atendidas. Temos realmente nossa segurança garantida? Ou é sempre preocupante andar na rua depois que anoitece? A violência contra a gente ainda pode ser justificada pelas roupas que usamos? Estamos vulneráveis a assédio pelo simples fato de sermos mulheres?
Os altos números de feminicídio no país comprovam a falta de segurança para as mulheres. Sendo assim, quais os riscos envolvidos na busca por realização pessoal feminina, quando uma das necessidades básicas não está assegurada?
Os riscos infelizmente se concretizaram com a tragédia ocorrida em novembro de 2025, no Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet), no Rio de Janeiro. Duas mulheres foram assassinadas por um servidor que não suportava ser liderado por mulheres. Mulheres que acreditavam poder ocupar cargos de liderança, assim como eu e todas as outras mulheres que estavam no treinamento comigo.
A sensação de que poderia ser eu, ou uma colega próxima de mim, é aterrorizante. Faz sentido buscar auto-realização nesse cenário de insegurança? Entretanto, a opção seria ainda pior: desistir, deixando a misoginia anular nossos sonhos.
Mesmo ciente dos riscos, não somente continuo buscando a realização dos meus sonhos, mas também estimulo outras mulheres a fazerem o mesmo. Esta é minha forma de lutar por uma realidade melhor, em que a auto-realização não seja um privilégio exclusivamente masculino.
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